As
letras não mentem
Artigo
publicado da revista "Isto é" em
08/05/1996
Empresas
apelam à interpretação da personalidade através da escrita para selecionar
novos funcionários
VALÉRIA PROPATO
O "a" em forma de triângulo indica um temperamento agressivo e
autoritário. Um "c" enrolado é sinal de egoísmo. O "j"
com a perna sinuosa mostra uma pessoa traumatizada e rancorosa. Para quem
acredita na grafologia, as letras podem revelar a alma de uma pessoa. Essa é
uma verdade apregoada há seis séculos por adivinhos e videntes. Agora, ganhou
ares de ciência. Grandes empresas resolveram usar a grafologia na hora de
selecionar novos funcionários. O objetivo é barrar os candidatos
incompetentes, preguiçosos ou desonestos. Como? Sutilezas como interrupções
bruscas, torções ou inclinações acentuadas podem conter revelações
inimagináveis. Basta, para isso, o grafólogo interpretar essas minúcias gráficas
como indícios seguros de uma personalidade inconfiável.
A Rede de Hotéis Othon, com 3,2 mil funcionários espalhados em 18 cidades, por
exemplo, decidiu apelar para a grafologia há quatro anos. "Precisávamos
contratar novos empregados para preencher cargos estratégicos. Cada função
exigia uma personalidade diferente e, para encontrar a pessoa certa, consultamos
um grafólogo", conta a gerente de recursos humanos da Rede Othon, Cristina
Secchin. Ela admite que a grafologia foi decisiva em muitos casos. "Nossa
principal exigência é honestidade. Candidatos foram barrados porque
apresentaram traços de insinceridade na grafia." Segundo os grafólogos,
letras retorcidas, assinaturas com letras muito diferentes do resto do texto e
falta de clareza na escrita a ponto de dar margem a interpretações dúbias são
indícios de falta de sinceridade.
A avaliação grafológica é realizada por empresas especializadas. A mais
famosa delas é a Grafia, do psicólogo Alberto Swartzman, 41 anos, que fez Pós-Graduação
em Grafologia na Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro. Espécie de guru da
interpretação da escrita, Swartzman cobra R$ 100 por consulta, atende empresas
e pessoas físicas e acaba de lançar um livro (Grafologia - manual prático)
para quem deseja se iniciar nos mistérios da ciência de decifrar as letras.
Sua clientela inclui laboratórios farmacêuticos, lojas de departamentos e
companhias de seguro. No total, são mais de 50 firmas. Nenhum candidato a um
posto de trabalho é obrigado a fazer o teste grafológico. As companhias
precisam obter uma autorização por escrito do pretendente ao cargo para enviar
o texto. Antes de responder a cada consulta, Swartzman recebe do cliente uma
descrição pormenorizada das características exigidas para o preenchimento da
vaga. Honestidade e sociabilidade são os itens mais valorizados.
Mas existem empresas que desejam saber detalhes sutis da personalidade do
candidato ao cargo. Algumas vasculham até mesmo a opção sexual do futuro
funcionário. "Para muitos empresários, o homossexualismo acaba sendo uma
restrição no momento de contratar um empregado", afirma Swartzman. Nesses
casos, o grafólogo lava as mãos. A particularidade não é registrada no relatório
sobre o candidato. "Em geral, faço a observação diretamente ao chefe do
departamento pessoal pelo telefone. A decisão final é da empresa", relata
o grafólogo. Mas como detectar, sem margem de erro, a opção sexual? "Não
é difícil. A grafia
dos
gays apresenta sinais inconfundíveis, como floreios, coqueterias e excesso de
curvas. Já as lésbicas exibem ângulos pontiagudos nas letras", explica
Swartzman. Em consultas para pessoas físicas, muitas vezes, o grafólogo
precisa desvendar casos de adultério, como se fosse um detetive. "Uma
senhora me trouxe um texto do marido para saber se estava sendo traída.
Constatei que ele era, de fato, desonesto, mas não poderia garantir que era adúltero."
Segredos de alcova não interessam à Price Waterhouse, uma das mais importantes
empresas de auditoria e consultoria do mundo. Mas outros aspectos da
personalidade como sociabilidade, capacidade de concentração e objetividade são
itens fundamentais para a avaliação de futuros empregados. "O principal
item é a sociabilidade. Afinal, trabalhamos sempre em equipe", diz a psicóloga
Edna Godoy, do departamento de recursos humanos da empresa. Ela admite que a
grafologia pode levar a equívocos, caso seja utilizada de modo inadequado.
"Para não cometer a injustiça de recusar um candidato por dados puramente
subjetivos, associamos a grafologia a outros testes. Na realidade, o modo como o
candidato escreve fornece subsídios para validar outras informações obtidas
ao longo do processo seletivo."
Essa cautela é necessária. Entre os psicanalistas, a grafologia é vista com
restrições. "A fala é muito mais importante porque revela atos falhos. A
grafia mostra apenas o temperamento, não a personalidade", analisa a
psicanalista carioca Regina Taccola. "A grafologia funciona apenas como
ponto de partida. Definir a personalidade humana pela grafia é pretensioso
demais", reforça Marlene Dias da Silva, da Sociedade Brasileira de Psicanálise.
De fato, nada é tão simples como parece. Uma letra ascendente que, para o
grafologista, sinaliza ambição desmedida, por exemplo, pode representar um
disfarce para um complexo de inferioridade, segundo a interpretação do
psicanalista. "Na realidade, nada substitui a entrevista com o candidato a
um posto de trabalho. As empresas apelam para a grafologia para economizar
tempo. O perigo é estabelecer um diagnóstico simplista e precipitado",
adverte Raquel Zeidel, também da Sociedade Brasileira de Psicanálise.
A grafologia tem origem curiosa. Ela nasceu no confessionário de uma igreja na
Espanha, no século XIV. O rabino Samuel Hangid costumava aconselhar os fiéis
depois de analisar o modo como eles escreviam bilhetes. Dois séculos depois, médicos
espanhóis e italianos começaram a fazer uma comparação entre a grafia e o
caráter. Surgiram as primeiras tentativas de estabelecer regras de análise da
escrita. A história começou a ficar séria mesmo quando surgiu a primeira
escola de grafologia, em Paris, no século XIX. Depois disso, os grafólogos
incorporaram conceitos de Freud e Jung para interpretar o inconsciente por meio
da análise da grafia. Há casos em que não é difícil perceber uma ambição
sem freios. Nas cartas que o sequestrador Leonardo Pareja - que liderou uma
rebelião no presídio de Aparecida de Goiânia, em Goiás - escreveu à polícia,
a letra "m" aparece com as pernas reforçadas para baixo, o que
indicaria forte atração por dinheiro, afirmam os grafólogos.
Nem sempre uma letra bonita é sinônimo de personalidade harmônica e bem
resolvida. Os especialistas dizem que a beleza do traço tem valor estético,
mas não diz muito sobre o caráter. A caligrafia ilegível, no entanto,
demonstra com certeza que a pessoa tem dificuldades de se comunicar com os
outros. Seria um indício de inadaptação ou mesmo sentimento de inferioridade.
Em contrapartida, quem escreve com excessiva clareza, fazendo questão de
sublinhar seguidamente as palavras, pode no fundo esconder uma carência
afetiva. O certo é que a falta de acentuação e pontuação corretas
caracteriza uma personalidade negligente.
A análise da grafia de políticos também pode ser esclarecedora. Nesses casos,
o melhor é atentar para a assinatura. Especialmente se o político é dado a
escrever bilhetinhos, como o ex-presidente Jânio Quadros. Seus recados para
assessores, com recomendações, críticas e elogios, foram sua marca
registrada. O detalhe que chamou a atenção dos grafólogos foi a mania que Jânio
tinha de arrematar a assinatura com um ponto final. Os especialistas dizem que
isso é sinal de autoritarismo. Mas indica ainda que Jânio era uma pessoa
desconfiada e tinha obsessão em ser perfeito. Quando se debruçaram sobre a
assinatura do ex-presidente Fernando Collor, os estudiosos notaram que ele fazia
questão de realçar o sobrenome. Para os grafólogos, isso é indicativo certo
de vaidade e orgulho.